POR QUE AS CRIANÇAS MORDEM – PARTE I
Crianças pequenas têm interesse e curiosidade por tudo que há a sua volta. A relação com o mundo exterior inicia pela boca, por onde a criança faz importantes descobertas e por onde ela realiza a diferenciação entre o eu egocêntrico e o outro.
Significativos processos físicos, psíquicos e sociais acontecem nesse período que acompanha a dentição. É comum nessa fase, chamada de fase oral, vermos a criança mastigando, sugando, produzindo sons, levando objetos a boca e mordendo.
De fato, a criança tem um ímpeto de conhecer o outro. Trata-se de um processo natural, que tende a diminuir com o desenvolvimento da fala, uma vez que, com a estruturação de funções psíquicas, como a linguagem e o pensamento e com a construção da razão, a criança encontra estratégias mais elaboradas, para reagir diante de situações desconfortáveis e conflituosas.
Principalmente na fase da adaptação ao universo escolar, as mordidas são comuns e quase sempre inevitáveis, pois a criança procura de alguma forma expressar o desconforto e a ansiedade que sente ao estar diante de um ambiente absolutamente novo para ela, com novas oportunidades de interação com os outros e com o estabelecimento de novas regras.
Pais que não entendem o que está acontecendo, podem reagir erroneamente, gritando, castigando ou até mesmo batendo. Tais atitudes, além de não resolverem o problema, contribuem para que a criança perca a confiança e a segurança nos pais, porque imagina que não é mais amada. Portanto, é de suma importância se compreender que a fase passa com mais rapidez e menos dor, se respeitarmos a criança e ela perceber que nosso afeto não foi abalado.
Além disso, é preciso observar em quais situações a criança morde mais, bem como, o que motivou a mordida. A criança pode bater ou morder por vários motivos, tanto pode ser por conta da própria fase, como pode ser uma forma que encontrou para expressar seus sentimentos e angústias. Ela pode estar querendo chamar atenção dos adultos, especialmente dos pais, por carência, por falta de carinho ou apoio, por ausências repetidas... Há que se investigar a motivação. A esse respeito podemos elucidar que:
"Para compreender cada criança, é necessário recorrer às condições concretas de sua existência, uma vez que as interações de cada um com o seu meio abrangem significados de caráter biofisiológico, afetivo, cognitivo e social". (Hoffmann, 1997, p. 511)
À escola cabe a tarefa de analisar cada indivíduo de forma única e contextualizada, pois, cada criança é um novo ser, cada uma carrega intrinsecamente os resquícios do seu contexto social e das oportunidades que lhe foram oferecidas. Nessa análise a escola jamais perderá de vista o caráter pedagógico da sua ação, estimulando a criança a expressar de forma lúdica seus gostos e preferências, estabelecendo gradativamente a divisão de espaços e o conceito de limite, necessário para o convívio em grupo.
Tendo em vista esse caráter pedagógico, as ações que visem o isolamento da criança que morde estarão descartadas, uma vez que, tal atitude acabaria por comprometer sua socialização, fazendo com que a fase permaneça por mais tempo. Também são descartadas atitudes estigmatizadoras que rotulam a criança e podem interferir diretamente na construção da sua identidade. A sala deve ser lugar de constantes trocas afetivas, de segurança e companheirismo.
Maria de Lourdes Tavares Magalhães – Pedagoga.
Colégio Santa Teresa de Jesus.


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